Mad Max (1979, 1981 e 1985), a trilogia.

Os dois primeiros filmes de Mad Max estrearam ainda antes de eu nascer. O terceiro, quando eu ainda ia completar três anos. Vem um quarto por aí, trinta anos depois do terceiro e isso me incentivou a rever os três filmes, mais de vinte anos depois de tê-los visto na TV em incontáveis tardes da Globo. Fiz isso com estilo: comprei a trilogia em blu-ray e os assisti, um por dia, três dias seguidos. Quando criança/adolescente, eu adorava a série. Sempre lembrava dos filmes com muita estima, embora lembrasse que não tinha gostado muito do terceiro filme e que preferia o segundo ao primeiro. Revê-los agora, uns vinte anos depois, foi uma experiência interessante e ajudou a quebrar alguns paradigmas.

***

mad max 1O primeiro filme, de 1979, felizmente não teve subtítulo no original nem nacional e nem teve seu título traduzido no Brasil. Aqui há o péssimo hábito de inventar títulos para os filmes que originalmente apresentam os nomes das suas personagens principais no título. Há coisas bem estranhas, como Michael Clayton virar Conduta de Risco. Nunca entendi a lógica, mas me alegra saber que ninguém teve a ideia de colocar algo “Max Maluco” ou “Vingança na Estrada” ou coisa do tipo.

Mad Max, escrito e dirigido por George Miller, é sobre Max Rockatansky, um policial em um futuro próximo assolado por uma crise de energia, no qual gangues tomam as ruas e saqueiam tudo o que podem, principalmente incautos viajantes. A história do filme é bem simples: Max é pego no vácuo entre lei e ordem, prendendo um membro de uma gangue que escapa devido a tecnicalidades legais, mas se vinga do parceiro de Max, colocando-o entre a vida e a morte. Isso leva Max a se afastar da unidade policial da qual faz parte e a se isolar no interior com sua esposa. Porém, a tragédia o acompanha e a gangue vitimiza sua família, levando-o a procurar a vingança contra os membros da gangue. Sua brutalidade rende-lhe a alcunha de louco (“Mad”, no original).

Este é basicamente, o enredo do filme. Algumas coisas destacam o filme de tantos outros com roteiros bem similares. A primeira delas é que isto é, de fato, o filme. A cena final, da vingança de Max, se desenrola nos últimos vinte minutos do filme. Os filmes com roteiros semelhantes de hoje em dia apresentariam toda a minha sinopse em vinte minutos e usaria os setenta minutos restantes em exercícios de criatividade sobre formas violentas e sangrentas de vingança. Aqui nós realmente vemos a história do filme se desenvolver e entendemos a desilusão de Max com o mundo e com a força policial até ele se defrontar com o fim do “seu mundo”, na figura da família. De enlouquecer mesmo muita gente que, em um contexto similar, procuraria vingança como ele. Isso é sensacional, porque isso é, de fato, desenvolvido no filme e não uma desculpa qualquer pra mostrar violência e ação, como os filmes de hoje em dia. Há elementos que apontam para a ruína da sociedade que passam desapercebidos para os mais desavisados: quando uma delegacia aparece no filme, no lugar de vermos um ambiente higienizado e hipertecnológico, ela é vista sempre em desordem, como se nela houvesse passado um furacão.

A segunda coisa é que é o tipo de filme cinemão hollywoodiano, mas que não foi feito em Hollywood, mas na Austrália e com um ator pouco conhecido na época: Mel Gibson. Mad Max foi, inclusive, responsável por lançar a carreira do ator, que saiu daí para Hollywood e outras franquias de sucesso.

Em terceiro, o filme é violento sem excessos. Violência no cinema contemporâneo parece significar litros e litros de sangue jorrando na tela. Em Mad Max, quase não se vê sangue, menos ainda na quantidade que nos acostumamos a ver nos filmes mais recentes. Isso não implica em dizer que o filme não é violento, pelo contrário… na época do lançamento ele teve censura R nos EUA. A grande questão é que, novamente, a violência é contextualizada, é um meio, não o fim.

É, certamente, um filme atemporal e merece ser visto e revisto.

Nota: 3 (de 5).

Nota IMDB: 7,0 (de 10, aprox. 110 mil votos).

***

madmax2O segundo foi lançado apenas dois anos após o primeiro e se passa cinco anos após a história dele. Em Mad Max: A Caçada Continua, acompanhamos Max cinco anos após os eventos do primeiro filme. Aqui é possível ver ambos os filmes como partes diferentes da vida de Max: se no primeiro entendemos como ele se transforma no ser oportunista, em um verdadeiro sobrevivente, no segundo vemos que, apesar da transformação e do trauma pelo que passou, Max ainda tem alguns poucos princípios.

Um homem de poucas palavras, decide ajudar uma comunidade que resiste aos ataques de gangues em busca de seu combustível e energia. No entanto, não faz isso por bondade ou coisa que o valha: Max concorda em ajudar em troca de receber, ele mesmo, água e combustível. Aqui nós podemos ver uma comunidade que resiste à destruição ao lutar por um ideal, mas vemos um Max que faz o que for necessário para sobreviver.

O filme foi aclamado pela crítica e mais do que o primeiro, principalmente pelas excelentes cenas de perseguição e pela economia nos diálogos. Parafraseando Hitchcock, Miller disse à época do lançamento do filme que gostaria de ser bem sucedido em uma tarefa: que Mad Max 2 fosse compreendido mesmo no Japão, sem legendas, que suas imagens fossem capazes de vencer a barreira do idioma. Não sei se conseguiu, mas que o filme tem imagens fortes e que falam por si só, é um fato.

No entanto, parece que aqui o filme já começa a dar sinais dos tempos vindouros e a história perde foco em troca da violência, como se, de repente, no novo mundo que se desenha, já não importasse nada além da capacidade de sobrevivência e esta dependeria do quão violento um indivíduo fosse capaz de ser. Como o primeiro filme, suas discussões são atemporais, parte central de um estudo de personagem que permite aos espectadores imaginarem a derrocada de uma sociedade, a reemergência de sociedades quase tribais, nas quais imperam a necessidade de sobrevivência e o potencial para a violência. Vale a pena ser visto e revisto, mas sempre junto do primeiro.

Nota: (3 de 5).

Nota IMDB: 7,6 (de 10, aprox. 97 mil votos).

***

mad max 3O terceiro veio quatro anos depois e se passa quinze anos após o segundo. Era melhor que Mad Max: Além da Cúpula do Trovão não tivesse sido lançado, porque os equívocos são muitos. Pontuando talvez fique mais fácil de explicar:

1. Max não envelheceu o suficiente: apesar de ter sido lançado apenas quatro anos após o segundo filme, decidiram situá-lo quinze anos depois. Isso tem alguns efeitos negativos, um dos mais visíveis é o fato de que Max não aparenta ter envelhecido o suficiente. Além de o trabalho de maquiagem não ter sido bem feito, ainda temos que considerar que nesse mundo de sol de rachar, quase sem verde e quase sem água, os sinais do envelhecimento provavelmente aparecerão bem mais cedo e, além de parecer que ele continua usando hidratante, acharam que não se barbear e deixar o cabelo grande seria suficiente pra ele parecer velho. Sério, produção?

2. A história do filme é muito rasa. É tipo assim: “ok, se passaram 15 anos… por onde anda Max?”. Aí ele vai, encontra uma cidade depois de perseguir um indivíduo que roubou seus pertences (Bruce Spence, de volta, mas com personagem diferente), entra na cidade e faz um acordo com a “dona” do local: matar um dos seus distintos cidadãos, com quem ela disputa poder. As coisas dão errado, Max é exilado e encontra a “tribo de crianças” mencionada no pôster e resolve ajudá-los por motivos que não ficam muito claros e não fazem o menor sentido. Não dá nem pra saber no que é que ele os está ajudando, de tão mal escrito que é esse roteiro.

3. Tina Turner é uma caricatura de si mesma: ela só fala entortando a boca. Usa roupas (ou algo que pode lembrar isso, se você se esforçar) que acentuam o decote e tem uma cabeleira de dar inveja a Max. Apesar de ser a líder de Bartertown, a cidade onde fica a tal cúpula do trovão, ela não parece ter muita relevância na história e tudo parece funcionar muito bem sem ela. Claro, a personagem está ali, ela faz a história andar e tal… mas sabe aquela coisa de “vamos tirar dali e ver se o resto ainda funciona”? Tenho a impressão de que a resposta seria positiva…

4. O filme parece uma paródia autorreferente: ele faz piada o tempo inteiro com os próprios filmes, não sei se de forma proposital ou não. Talvez porque, para ser mais comercial, o filme optou por diminuir a violência explícita em prol da classificação PG-13, mesmo que os filmes anteriores fossem R.

5. Existe a Terra do Nunca e os Garotos Perdidos, mas faltou o Peter Pan: sério, isso está até no cartaz, como “uma tribo de crianças” buscando um salvador. Eu entendo a ideia de uma sociedade que se torna, com o passar do tempo, cada vez mais primitiva. Eu entendo que, anos depois de terem sido vistos as últimas cidades e aviões, eles endeusem eles, vendo as coisas de forma mais mítica. O que não entendo é como uma tribo com, sei lá, vinte, trinta crianças, existe quando só há três ou quatro adolescentes na tribo e nenhum adulto. Eles não nasceram das árvores, afinal de contas… O pior é que fala-se neles no pôster do filme, como se fossem a parte mais relevante dele (e eles não têm nada a ver com a tal cúpula do trovão e sequer chegam a vê-la), mas só aparecem na segunda metade do filme.

6. Um subtítulo que não diz nada: o filme não precisava de um subtítulo. Podiam ter nomeado o filme apenas como “Mad Max 3” ou algo do tipo, seria suficiente. O que não dá pra engolir é colocar no título o nome de uma gaiola de luta (sim, isso é a tal “cúpula do trovão”) e mostrá-la, em um filme de 106 minutos, por menos de 20 minutos. Aí você, leitor, deve estar pensando: pelo menos é uma cena climática? Não, não é. É uma cena que se passa antes de terminar a primeira metade do filme. É de lascar. “Pigshit” seria um subtítulo muito mais interessante pro filme, de verdade, já que tudo no filme gira em torno do metano coletado das fezes de porcos: a única pessoa que tem conhecimento técnico para realizar a extração, a disputa pelo poder em Bartertown e até as tentativas de infiltração na cidade depois do exílio de Max.

Poxa, mas não tem nada de bom no filme? Bom, tem. Tem “We don’t need another hero”, música-tema do filme cantada por Tina Turner. A música foi indicada para o Globo de Ouro e para o Emmy e venceu um MTV Music Awards no ano de lançamento do filme. A música é boa mesmo e tem uma letra interessante e, de fato, relacionada à história do filme. Só não entendi porque ela toca apenas nos créditos finais…

Nota: 1 (de 5).

Nota IMDB: 6,2 (de 10, aprox. 76 mil votos).

***

É, rever os três filmes em sequência me fez quebrar alguns paradigmas que tinha sobre o filme: o segundo não é melhor do que o primeiro, o terceiro é muito pior do que eu lembrava, a alcunha de “Mad” não faz sentido algum e a série, como um todo, não é lá essas coisas… De todo modo, verei o quarto no cinema: o trailer parece bem fiel à atmosfera dos filmes anteriores, dois atores dos meus preferidos (Tom Hardy como Max e Charlize Theron) estão lá e, afinal de contas, vai ser uma bela lembrança da infância. Não sei qual será o ponto de partida do quarto filme, mas arrisco dizer que o terceiro filme será ignorado (e assim deve ser, a menos que você seja estudante de cinema e queira um perfeito exemplo do que não fazer). Só espero que George Miller tenha aprendido com os erros, porque a culpa é toda dele: ele dirigiu os três filmes e também o vindouro; ele é um dos roteiristas envolvidos no trabalhos de todos os filmes, inclusive o vindouro; como produtor, ele trabalhou no terceiro e no quarto. Então, se alguém pode ser responsabilizado pelos erros (e acertos) da série, é o próprio Miller.

A Outra Terra (Another Earth, 2011).

anotherearthtrailer__span

Há um tempo que ansiava por ver este filme, mais pela curiosidade sobre a história do que por qualquer outra coisa. Não conhecia muito do elenco principal, via pelo trailer que a história envolvia mais o drama do que a ficção científica e depois que consegui o filme, descobri que o tempo total, da tela inicial ao final dos créditos era de apenas 92 minutos e pensei cá comigo: em um filme tão curto, não é possível que a história atenda adequadamente a todos os elementos que parecem estar no filme, que não tenha soluções apressadas e capengas. Hoje eu assisti e, felizmente, descobri como estava enganado.

Na história do filme, uma nova Terra é descoberta (chamada de Terra 2), aproximando-se gradativamente da Terra  na qual estão as personagens que acompanhamos (a Terra 1). Na noite de sua descoberta, uma jovem (Brit Marling, sensacional) recém-aceita pelo MIT para cursar a faculdade, após comemorar a aprovação, ouve a notícia pelo rádio e, interessada pelo espaço como saberemos depois, fica fascinada com a possibilidade e olhando para o céu, admirando o ponto azul que aparece lá. Ok, dirigir olhando para outro lugar que não a pista já é perigoso, bem sabemos disso, mas fazer isso ainda estando embriagada é desastre na certa. Ela atinge um carro parado em um semáforo, no qual uma família brinca com jogos de palavras que rimam. Da família, apenas o homem (William Mapother, o Ethan de Lost) sobrevive, morrendo sua esposa e seu filho, ainda criança.

O filme corta para quatro anos depois, quando Rhoda (Marling) está saindo da prisão e tenta, aos poucos, retomar a sua vida. Vemos pelos cortes de cenários amplos, que a Terra 2 está cada vez maior no horizonte. Ouvimos pelo rádio e vemos os noticiários da TV, assim como Rhoda, especulações sobre o que pode ser a Terra 2: mesma geografia, mesmas cidades, até. Assistimos com certo espanto – sim, eu até me arrepiei – quando é transmitido ao vivo a primeira tentativa de contato com a Terra 2 e o choque de receber contato de volta. Parece uma repetição da transmissão do pouso na Lua, sessenta anos atrás. Um empresário bilionário resolve fazer um concurso para enviar cidadãos comuns para a Terra 2, mediante uma carta de motivos. Os melhores serão selecionados e Rhoda, não se sabe ao certo se tentando escapar daquela realidade ou buscando descobrir como é sua vida e da família que matou no acidente naquele outro mundo, escreve para participar do concurso.

Enquanto isso, ela tenta se conectar com John (Mapother), o sobrevivente. Inicialmente, o procura para pedir desculpas e dizer como se sente, mas ao não encontrar forças para fazê-lo, mente e diz que está lá a serviço de uma empresa de limpeza. É através dessa mentira que Rhoda passa a frequentar a casa de John e descobrir mais sobre ele, sobre a ruína que ela causou e sobre a família.

A busca por redenção de Rhoda é linda. De um momento de desespero em meio à neve, aos ensaios para contar a John que ela foi a responsável pela morte de sua família – ela era menor de idade à época do acidente e por isso sua identidade não foi revelada -, o filme apresenta seu arrependimento, sua sensação de estar “fora do lugar” – ainda mais quando encontra um antigo colega de escola e lhe explica que ela é assistente de limpeza de uma escola, e não um cargo brilhante como ele aparentava esperar dela – é visível para os espectadores nas cores escuras, nas suas caminhadas solitárias, na sua contemplação do céu, da Terra 2 e de tudo aquilo que ela não pôde ser.

Essa apresentação implícita do estado de espírito de Rhoda – as cores, o vazio, a solidão – e do “evento Terra 2” – pelas notícias no rádio e na TV – permite que a história do filme flua sem interferências, sem excessos melancólicos típicos dos dramas hollywoodianos. O filme faz você pensar: será que, em outra vida, eu fiz tudo do mesmo jeito? Cometi os mesmos erros e acertos? Como será que eu sou?

O filme é muito bom. Vale a pena assistir e ter na prateleira para, de vez em quando, nos lembrar de como a vida pode nos passar a perna e como podemos reconquistá-la.

Nota: 5 (de 5)

Nota IMDB: 7,0 (de 10, aprox. 53 mil votos)

Os Mercenários 3 (The Expendables 3, 2014).

Expendables-3

Eu estava animado para assistir, principalmente depois de rever os dois primeiros. Não consegui ver no cinema poucos dias depois, como eu havia antecipado que faria, só consegui ver hoje. Talvez tenha sido melhor assim, pois o filme é, de longe, o mais fraco de todos. Ao contrário dos filmes anteriores, há poucas referências a filmes e situações da vida real dos atores e isso tira metade da graça do filme. Da geração old school dos filmes de ação da década de 1980 e início dos anos 1990, são três novas adições: Wesley Snipes e Harrison Ford, com papeis razoavelmente relevantes, e Mel Gibson como o vilão do filme. Antonio Banderas e Kelsey Grammer também estão lá, mas não fazem parte daquele estilo de filme, naquele período.

Na história do filme, um dos membros (negão) do grupo dos mercenários é ferido em combate por um dos seus membros fundadores (Gibson), que se acreditava morto. Isso leva Ross (Stallone) a debandar o grupo e recrutar jovens mercenários, ainda mais descartáveis. A missão não dá certo, eles são capturados (isso lá pela metade do filme) e ele retorna para salvá-los, agora com o grupo anterior. A cena final, que deve durar uns quinze ou vinte minutos de tiros e explosões nonsense no melhor estilo dos filmes de selva de Stallone e Rambo, coloca os dez mercenários contra um exército. Eles vencem, claro, nenhum deles morre e nenhum sequer sai ferido com um tiro. É, é mesmo tão macarrônico e ridiculamente forçado que eu resolvi estragar o final do filme pra vocês.

Minha maior decepção foi o desperdício de uma cena que tinha tudo pra ser memorável, como escrevi na postagem sobre os filmes anteriores: Jet Li e Mel Gibson sequer se encontram em cena. Uma verdadeira lástima.

Nota: 2 (de 5)

Nota IMDB: 6,2 (de 10, aprox. 68 mil votos)

Ando tentando entender…

– gente que ainda usa aplicativo pra se duplicar em foto;
– frases enigmáticas em redes sociais;
– reclamações histéricas da corrupção alheia sem refletir sobre o próprio comportamento e idoneidade moral;
– a justificativa do “errei, eu sei, mas acho válido”;
– preocupação excessiva com a vida alheia;
– atribuição de culpa a outrem, sempre acompanhada de negação ou cegueira sobre as próprias falhas.

Os Mercenários 1 e 2 (The Expendables, 2010; The Expendables 2, 2012).

expendables_ver9_xlgA franquia Os Mercenários é pura diversão sem compromisso algum com nada, a não ser muitos tiros, explosões e lutas bem coreografadas. Se você não cresceu durante os anos 1980 com as infindáveis reprises dos clássicos da testosterona protagonizados por Sylvester Stallone, Bruce Willis, Arnold Schwarzenegger, Chuck Norris, Dolph Lundgren e Jean-Claude Van Damme, você não vai achar graça nenhuma nesses filmes. A diversão deles é justamente o poço de referências – nas expressões consagradas daqueles filmes, nas cenas e nos diálogos entre as personagens – que você só vai reconhecer se tiver assistido àqueles filmes.

Os roteiros dos filmes são bem simples, colocando o espectador no meio da ação tão logo seja possível. Stallone tem participação nos roteiros de todos eles, inclusive do terceiro, que está atualmente nos cinemas, mas como o objetivo é realmente fazer piada com as próprias carreiras, não faltam situações para isso. No primeiro filme, o grupo de mercenários liderado por Barney Ross (Stallone) é contratado por Church (Willis) para uma ação rápida em uma pequena ilha latino-americana, derrubar um ditador. No grupo de mercenários, além dos já mencionados Stallone e Lundgren, estão astros mais novos, como Randy Couture, Terry Crews, Jet Li e Jason Statham. Roteiro bem previsível se, nos anos 1980, nós estivéssemos falando de qualquer filme de alguns desses atores. Claro que, pra temperar um pouco a ação, as coisas não acontecem exatamente do jeito que se espera, Church esconde alguns segredos, a ilha tem uma história mais complexa do que a apresentada (mas não muito, claro, afinal, o que importa são os tiros e as explosões), surgem interesses amorosos e, se nos filmes dos anos 1980 cada um deles, sozinho, era capaz de enfrentar um exército inteiro, se apressam, neste filme, a dizer que seria loucura eles fazerem isso. No entanto, “corajosos e loucos por ação” e como o filme ainda estava na metade, eles partem para a briga e, claro, conseguem seu objetivo.

Ok, Rodrigo, você está nos dando spoilers! Hum… não exatamente. É preciso entender o seguinte: o objetivo do filme é reunir a maior quantidade possível de astros daquele período reprisando papeis que são caricaturas deles mesmos. Nada de ninguém morrer. Pra quê, se querem fazer mais filmes? Um tiro aqui e outro ali, um olho roxo e isso é suficiente, porque eles são tão invencíveis quanto eram na década de 1980, apesar de hoje serem “peças de museu”, como eles se referem a si mesmos em certo momento.

the-expendables2Chegamos ao segundo filme. Após uma longa cena inicial de muita ação nos primeiros vinte minutos de filme, Church volta para cobrar uma dívida pendente do primeiro filme. Os Mercenários topam a empreitada mais para se livrarem dele do que por qualquer outra razão, até o momento em que um deles é morto (ops! Eu não falei que ninguém morria no parágrafo anterior? Veja o filme e entenda…) e a missão vira pessoal. Mais motivos para tiros, explosões e lutas. Willis e Schwarzenegger fazem participações estendidas dessa vez, com direito a piadinhas sobre seus filmes clássicos. As frases de efeito estão todas lá: a certa altura, Schwarzenegger solta o seu “I’ll be back” e Willis responde que ele “Já voltou demais”, ao que ele retruca com o famoso “yipee ki yay!” de Duro de Matar. Jean Claude Van Damme, interpretando o vilão francês (ou será belga mesmo?) chamado Vilain (!), dá os seus clássicos chutes de bailarina, girando no ar e acertando Stallone no rosto. Para os fãs mais velhos, é sensacional, mas não mais do que Chuck Norris sendo apelidado de Lobo Solitário e respondendo ao rumor de ter sido picado por uma cobra gigante, que morreu após agonizar por cinco dias, ecoando as muitas brincadeiras com a invencibilidade de Norris feitas por fãs na Internet.

Repito o que disse mais acima: o filme não pretende ser sério, trazer qualquer tipo de discussão inteligente nem se tornar algo memorável. É apenas diversão, voltada para os fãs dos filmes de ação da década de 1980, recheado de referências diversas. Assistir aos dois primeiros com menos de doze horas de intervalo entre eles foi cansativo, afinal de contas, a fórmula gasta só se mantém por causa das inúmeras referências – que os espectadores mais jovens não irão reconhecer. Por isso, é um filme para os fãs de outrora, e só.

Agora, com sua licença, vou descansar uns dois dias para poder ver o terceiro no cinema, que tem até Harrison Ford, Wesley Snipes, Antonio Banderas e Mel Gibson!, e estou louco para ver alguma cena com ele e Jet Li. Ah, pra quem não entendeu a referência, Jet Li dá um pau homérico em Mel Gibson e em Danny Glover em Máquina Mortífera 4. Voltarei para comentar.

Nota Geral: 3 (de 5)

Nota IMDB (1): 6,5 (de 10, aprox. 210 mil votos)

Nota IMDB (2): 6,7 (de 10, aprox. 199 mil votos)

Ela (Her, 2013).

herO filme mais recente de Spike Jonze a chegar aos cinemas é uma comovente história sobre os sentimentos e o amor, sobre o que faz deles algo real, tangível, e como nós reagimos a isso. Em Ela (Her, 2013), Joaquín Phoenix está maravilhoso no papel de Theodore Twonbly, quase em monólogo ao longo da maior parte do filme. Aliás, Phoenix é um dos melhores atores dessa geração, não tenho dúvidas; se alguém tinha, deve assistir Ela imediatamente! Scarlett Johansson também está deslumbrante como a voz do computador por quem Theodore se apaixona.

Na história do filme, Theodore está deprimido devido ao fim do relacionamento que só vemos em flashbacks rápidos. Ao contrário do que vemos em outros filmes, ele não demonstra comportamento suicida, nem se torna absolutamente antissocial. Torna-se, sim, mais recluso, mas interage com outras pessoas, ainda é sociável no sentido mais estrito do termo. Apenas por isso, o filme já se destaca ao não mostrar um suicida em potencial, alguém profundamente deprimido ao ponto de perder as mínimas capacidades de interação com as outras pessoas ao redor, que não consegue fazer o seu trabalho direito ou cumprir as funções mais básicas do seu dia-a-dia. Até que, como no filme estamos em um futuro aparentemente não muito distante, um novo sistema operacional baseado em inteligência artificial é criado, com a proposta de se adaptar perfeitamente aos hábitos e interesses de um indivíduo, evoluindo na medida em que evolui a relação entre o indivíduo e o computador, como relações convencionais entre duas pessoas.

A dinâmica estabelecida entre a Voz (não é assim chamada no filme, eu que apelidei) e Theodore é interessante. Ao colocar o aparelho no bolso da camisa de modo que possa captar imagens do seu ponto de vista e um fone de ouvido wireless que lhe permite estar em contato constante com a Voz, cria-se uma relação que dá a Theodore a sensação de estar continuamente acompanhado pelo seu amor. Desse modo, ela compartilha experiências com ele, vivencia momentos e, até mesmo, interage com outras pessoas. A singeleza com que isso é conduzido ao longo do filme, desde as tentativas de agradar ao seu amor (a Voz tentando agradar Theodore e Theodore tentando agradar à Voz) a uma viagem juntos para desfrutar de novas experiências é sensacional. As pequenas dissatisfações do cotidiano de uma relação também estão ali: uma palavra, expressão ou ideia ácida que fere os sentimentos alheios em momento impróprio, o distanciamento que gera insegurança, novos amigos que surgem como ameaça… É delicado, é belo e é fácil de se entregar aos sentimentos de Theodore quando eles nos parecem tão vivos e tão familiares.

Eu tive a sensação, todavia, de que faltou algo ao filme. Não sei se eu esperava uma reviravolta diferente ao final. Honestamente, eu nem sabia o que pensar, afinal de contas, a história é tão inusitada que é difícil mesmo você se antecipar ao final do filme. Tive lá minhas ideias ao longo dele e o final não ficou muito longe delas em sua essência, mas a conclusão, ainda assim, foi inesperada. Isso é o que faz, acredito, de um filme, uma boa experiência.

Como não sou crítico e apenas me dou o luxo de comentar os filmes aos quais assisti, encerro meus comentários aqui. No entanto, recomendo a crítica de Pablo Villaça no Cinema em Cena, para mim, um dos melhores críticos brasileiros de cinema. O link direto para a crítica pode ser acessado aqui.

Nota: 4 (de 5)

Nota IMDB: 8,1 (de 10, aprox. 196 mil votos)

Sobre e-mail spam e o telemarketing.

Lembrei de um comentário de um amigo no Facebook algumas semanas atrás. Recebo de duas a três vezes por semana, um e-mail da “Capa do Prazer”. O assunto é sempre o mesmo: “Aumente o seu pênis e o prazer da sua parceira!”. Qualquer dia isso vai vir em ligação de telemarketing, igual às empresas de telefonia, TV a cabo e Internet. Adaptando as perguntas que fazem lá, acho que seria algo mais ou menos assim:

– Olá, bom dia!
– Bom dia…
– Eu falo com o Sr. Rodrigo?
– Sim.
– Olá, tudo bem? Meu nome é Fulaninha, estou ligando da Capa do Prazer com uma excelente oferta para o senhor. O senhor tem tempo para ouvir?
– Olha, não muito, estou um pouco ocupado agora.
– É rápido, mas se o senhor preferir, posso retornar em outro horário. Qual o horário que fica melhor para o senhor?
– Não, fale logo, que é melhor, meus horários são sempre ruins.
– Bom, o senhor conhece os produtos ou alguém que tenha utilizado produtos da Capa do Prazer?
– Hã… não.
– Então, a Capa do Prazer, Sr. Rodrigo, oferece um produto diferenciado no mercado de brinquedos eróticos, uma capa peniana de silicone que nós chamamos de Capa do Prazer, o mesmo nome da nossa loja. Esta capa, Sr. Rodrigo, aumenta o tamanho do seu pênis, deixando-o três centímetros mais longo e aumentando a sua circunferência em aproximadamente dois centímetros. também.
– Hã… olha, eu não tenho interesse.
– Mas, Sr. Rodrigo, o senhor nem ouviu ainda a nossa proposta! O senhor é casado, possui companheiro ou companheira?
– Veja, eu tenho uma pessoa, sim, mas não estou interessado no produto.
– Mas, Sr. Rodrigo, o senhor não está interessado em aumentar o seu prazer e o prazer do seu companheiro ou da sua companheira?
– Sempre, moça, mas eu não quero o produto… olha, eu preciso mesmo desligar.
– Sr. Rodrigo, eu agradeço a sua atenção e gostaria de saber se posso fazer uma última pergunta, apenas para fins de registro do contato da nossa empresa com o senhor.
– Diga…
– Qual o motivo do seu desinteresse pelo nosso produto? O senhor acha que o valor é alto, que o produto não traz resultados satisfatórios ou o senhor e seu companheiro ou sua companheira está satisfeito ou satisfeita com o tamanho do seu pênis?
– …

Pensando bem, acho que fico feliz que o processo foi o inverso: começamos pelo telemarketing e “evoluímos” para o e-mail spam

Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014).

Quando Planeta dos Macacos: A Origem (Rise of the Planet of the Apes, 2011) estreou nos cinemas, fui animado assistir o filme no cinema. Saí de lá empolgadíssimo e, quando pude, comprei o DVD do filme. Ontem aproveitei para assisti-lo novamente e ir, poucas horas depois, ver sua sequência, Planeta dos Macacos: O Confronto (Dawn of the Planet of the Apes, 2014) no cinema. Minha memória é boa, mas nem tanto: gosto de rever filmes antes de suas sequências para lembrar ao máximo os detalhes da história e das personagens quando aparecem na sequência. Além disso, é uma ótima oportunidade para captar alguns detalhes que não tinha captado antes e recontextualizá-lo com nossas próprias histórias e experiências. Por isso eu não entendo muito bem quando as pessoas me questionam porque eu compro filmes, se eu realmente assisto de novo, etc – os bons filmes merecem ser vistos e revistos e, ao contrário do que muitos pensam, filmes também fornecem experiências de vida, tal qual os livros e outras formas de arte. A sua capacidade de estimular nossos sentidos e nos fazer rir ou chorar, ter medo ou vibrar, é impressionante! Deixando isso de lado por ora, vamos aos filmes.

***

dawn-of-the-planet-of-the-apes

Pessoalmente não tenho nada contra sequências. Lembro que, anos atrás, as pessoas sempre diziam que as sequências são necessariamente piores do que os primeiros filmes e eu nunca concordei com isso. Hoje, ainda menos. Com um público cada vez mais exigente, ainda é frequente um estúdio decidir fazer um novo filme julgando apenas os números atingidos pela bilheteria, mas eles têm sido mais cautelosos, de modo geral. Os próprios indivíduos que estão no “front de batalha” dos filmes – atores, roteiristas, diretores – têm escolhido com mais cuidado os roteiros e decidido participar ou não de uma sequência. Isso é ótimo, sinal de que o público tem força, que as críticas têm sido lidas e de que a bilheteria, por si só, não faz um bom de filme. Foi-se o tempo em que se apresentava um filme dizendo que ele estava há X semanas entre os cinco filmes mais vistos ou há Y semanas em exibição. Isso ainda existe, mas mais como um dado do que propriamente como parte do marketing do filme. As estratégias de divulgação hoje são outras: são frases de críticos conhecidos, em jornais e outras mídias reconhecidas no mercado, prêmios conquistados. Ponto para nós, consumidores, um pouco mais exigentes do que outrora.

O que isso tem a ver com o filme? Diferentemente da primeira tentativa de reboot da franquia em 2001, que é só um filme de ação e que, apesar de ter seus méritos, é uma grande porcaria, o filme de 2011 foi bom o suficiente (até mais, eu diria) para ter uma sequência desejada pelos fãs e pela crítica, além de ter sido rentável o suficiente para tanto. Felizmente, ela existe, está nos cinemas e foi feita com o devido cuidado em todos os aspectos.

No primeiro filme, vemos as experiências e os motivos do cientista que conseguiu desenvolver a inteligência dos macacos, ponto inicial do “fim da humanidade como conhecemos”, jargão mais do que batido, mas que representa bem a situação que veremos no filme e em sua(s) sequência(s). Vemos também as razões pelas quais os macacos se insurgem contra a humanidade e resolvem lutar pela sua liberdade, como adquirem inteligência e um emblemático combate contra a polícia na ponte Golden Gate, em São Francisco. Há cenas maravilhosas, como o carinho de César com o seu “avô” (John Lithgow, sensacional), protegendo-o de ameaças, a relação de pai e filho estabelecida entre César e o cientista responsável pela sua inteligência (James Franco, com a competência habitual) e a primeira palavra falada por César. Esta última cena é indescritível e, de longe, a melhor parte do filme, nos seus últimos trinta minutos. Fantástico!

No roteiro do filme, situado dez anos após o fim do primeiro (e não quinze, como o Cinemark divulga em sua sinopse…), as únicas personagens que retornam são os grandes protagonistas da história: os macacos. César, o primeiro macaco a desenvolver inteligência, aprender a falar e compartilhar isto com os demais macacos, Koba, um dos macacos mais velhos e que sofreu bastante enquanto “macaco de laboratório”, Maurice, o orangotango de circo, e Rocket, o antigo líder dos macacos, no primeiro filme, “destronado” por César ainda em cativeiro. Neste filme, os macacos estabeleceram sua própria sociedade no meio da floresta e o resto do mundo foi devastado pelo vírus criado e que começou a se espalhar no final do primeiro filme, e pelas guerras entre os próprios humanos, provavelmente pelas disputas de recursos, atribuição de culpa pela epidemia do que ficou conhecido como a gripe símia, entre outros fatores que não são explorados no filme.

No pouco que vemos da outrora paisagem urbana, ela está claramente tomada pela natureza: a vegetação cobre as ruas e estradas, os prédios estão em ruínas, não há energia elétrica e quase não há humanos. Os macacos sequer têm notícias de humanos há mais de dois anos e chegam a cogitar a possibilidade de que eles tenham finalmente terminado de se destruir. Na “sociedade símia”, vemos o crescimento da sua população – acho que ali tem trezentos ou mais macacos -, e o desenvolvimento de uma cultura símia, com as macacas parteiras auxiliando no parto de mais um filho de César e utilizando uma espécie de máscara distintiva, construções de madeira nas casas, a maestria sobre os animais – mostrado em uma bela cena de caça aos cervos e no uso de cavalos como montaria – e até uma escola, com Maurice ensinando os macacos mais novos a lerem, apresentando-lhes as letras.

Ao contrário do outro, como este é um filme bem mais recente, prefiro evitar os spoilers e não entrar muito na história do filme para não estragá-lo para quem ainda não o viu. Irei, portanto, me limitar aos elementos consagrados da franquia, que praticamente todo mundo que já ouviu falar nela deve conhecer. É neste filme que assistimos ao início da guerra entre humanos e macacos que levará à inversão de papeis entre eles no futuro, com os humanos tornados escravos e cobaias de laboratório. Uma das coisas mais surpreendentes é mostrar porque a guerra começa: um erro, um desentendimento entre as partes do conflito e pela ganância e ambição de um integrante de uma das sociedades. Como César bem coloca em certa parte do filme, “Nós [os macacos], não somos tão diferentes dos humanos, afinal”. Belíssimo.

Como o primeiro filme se passa em São Francisco e o segundo no que sobrou dela e em seus arredores, ainda não vimos aquela cena emblemática do final do filme original, lá de 1968, o classicão com Charlton Heston. Se a cronologia estiver sendo mantida, nem deveríamos ver, já que lá no clássico, um milênio se passou desde que a espaçonave saiu da Terra, então deve ser algo em torno de sete séculos desde que a revolução símia aconteceu.

De resto, quanto aos aspectos técnicos, que não tenho cacife pra comentar, mas manifesto opinião, três coisas:

1) a edição de som está fantástica; desde O Resgate do Soldado Ryan eu procuro sentar mais ou menos no meio da sala, para poder ouvir todos os detalhes dos filmes que se prestam ao uso de canais diferentes de som para certos efeitos. Se n’O Resgate… era possível ouvir as balas passando por você por causa do som que iniciava nas caixas da frente e seguia para as caixas de trás, nas várias cenas na floresta n’O Confronto, ouvimos sons de outros animais, de pássaros ou outros sons mais distantes, fazendo excelente uso do sistema de áudio. Há quem ache bobagem, mas para quem valoriza a experiência de imersão que o cinema proporciona, isso é maravilhoso!

2) Visualmente, os macacos estão cada vez mais reais. Honestamente, só percebia algo digital nas cenas com dezenas deles na tela, se olhasse para os cantos mais afastados. Ali você percebe algumas coisas fora de lugar, movimentos estranhos, artificiais. Mas em todo o resto, a textura dos pêlos e rugas faciais é impressionante.

3) Finalmente, Andy Serkis é o cara que arrasa na captura de movimentos e não tem pra ninguém. Se um dia eu pensasse em trabalhar com isso, ele seria a maior inspiração e um ídolo. Talvez eu desistisse quando pensasse que ele não dá chance pra ninguém: o cara já foi King Kong, Gollum e César. Ele não precisa de mais nada.

Nota: 5 (de 5)

Nota IMDB: 8,2 (de 10, aprox. 77 mil votos) – apenas do segundo.

Das boas ideias que ficaram para trás (II).

Na postagem anterior com título homônimo, falei sobre boas séries que foram canceladas antes de mostrarem a que vieram. Hoje a proposta é diferente: falar de séries que tiveram o seu final anunciado, isto é, não foram canceladas, e tiveram a oportunidade de dar um fim digno à série, mas se perderam o rumo no meio do caminho. Uma delas concluiu este ano, a outra terminou no ano passado. Sigo pela ordem de conclusão de cada uma.

***

dexter_season_8_wallpaper_hd_by_inickeon-d6670s9

Dexter, das três, é a que mais me dói reconhecer isso. Acompanhei a série desde o início. Quando a segunda temporada começou a ser exibida, eu comecei a ver a primeira, a tempo de acompanhar semanalmente os episódios da segunda para fechar a temporada em dia. O sarcasmo do serial killer “do bem” era muito bom. Seus dilemas morais, entre se ater ao Código de Harry e ceder aos seus impulsos, entre ser justo à memória de um colega policial que o estava investigando e outras questões ainda mais profundas que surgirão apenas temporadas mais tarde, eram fenomenais. A atuação extraordinária de Michael C. Hall, um dos meus atores preferidos desde A Sete Palmos, sem dúvidas, ajudava nisso. Infelizmente, a série não tem apenas altos e baixos, apesar de o seu formato favorecer apenas os altos, com 12 episódios por temporada, apenas.

As quatro primeiras temporadas foram sensacionais. O final da quarta temporada, aliás, foi um dos melhores finais de temporada que já vi em uma série, com a morte não anunciada de uma das principais personagens da série. A quinta temporada, que tinha tudo para partir do season finale sensacional da temporada anterior e construir uma excelente história de redenção e reorganização interna do nosso querido serial killer decepcionou muito. Parecia claramente aquelas situações de uma série que faz muito sucesso e é renovada sem se ter muita ideia do que fazer adiante e aí alguém vai e faz uma grande besteira. Felizmente, a série foi renovada.

A sexta temporada resgatou a fé dos seus espectadores com boa história e excelentes participações de Colin Hanks e William Adama, quer dizer, Edward James Olmos. O seu season finale não foi mais chocante que o quarto, mas em termos de importância para a história geral da série, talvez tenha sido mais grandioso, alterando definitivamente a relação entre os dois protagonistas, Dexter e sua irmã, Debra. Seguido do anúncio de que a série teria apenas mais duas temporadas para encerrar a sua história, este final nos deu a impressão de que havia um caminho bem delineado para seguir e finalizar com dignidade a história de Dexter.

A sétima manteve bem esse clima de final: a série dava os sinais de que estava mesmo se encaminhando para o final, com revelações surpreendentes e o cerco se fechando ao redor de Dexter. Até que a série teve seu melhor season finale e tudo pareceu se encaixar. Eu imaginei milhões de coisas para a temporada seguinte e como ela iria terminar. A conclusão da sétima temporada parecia apontar um caminho muito claro para mim, não só nas relações que iriam mudar entre as personagens centrais, quem iria morrer e quem não iria e, eu juro, acho que o final que eu pensei seria muito mais interessante do que o finalzinho mequetrefe que nos deram na oitava temporada…

A temporada final foi uma desgraça em si mesma. Teve uns três ou quatro bons episódios, principalmente os primeiros, lidando com as consequências do final da sétima. Nada do que eu imaginei que poderia acontecer aconteceu. Modéstia à parte, o desenvolvimento que pensei faz muito mais sentido, mas tudo bem, vamos ver, vamos ter um final surpreendente! Foi isso que pensei, mas não foi o que aconteceu. O final foi brochante, pra dizer o mínimo. Havia tanto potencial, tanto potencial! Tudo desperdiçado… até a resolução das relações entre Dexter e Debra foi sem graça, sem emoção. Horrível, pra dizer o mínimo. Eu, como fã inconteste da série desde o início e que a defendi mesmo no seu pior momento (a quinta temporada), não consegui gostar do final. E olhe que quando nós estamos empolgados demais com algo, tendemos a minimizar as falhas, mas não deu. Não mesmo.

O motivo de esta série estar aqui nesta postagem é justamente esse: um final indigno para uma série que teve, no geral, muito mais pontos bons do que ruins. Ainda assim, é uma série que vale a pena ser assistida, mas não se empolgue muito criando expectativas que não serão atendidas no final… É melhor esperar pouco do que se decepcionar.

Nota: 4 (de 5)

Nota IMDB: 9,0 (de 10, aprox. 364 mil votos)

***

Californication-Season-7-end

Californication foi outra decepção, mas, ao contrário de Dexter, a decepção não veio só ao final, ela acompanhou boa parte da série. Com sete temporadas, a série teve excelentes três primeiras temporadas. Depois disso, a história parece que se tornou repetitiva e forçada. Repetitiva, porque sempre acontece o pior com Hank Moody, não importa que ele esteja sempre revestido das melhores intenções. Forçada, porque tudo parece desculpa para palavrões, drogas e sexo. Se nas três primeiras temporadas estes elementos eram recursos narrativos que faziam a história andar, nas restantes eles são apenas elementos onipresentes. Todo mundo está transando em algum lugar o tempo todo e surpreender alguém fazendo isso, na série, é tão comum que nem deveria ser surpresa.

A “fauna” de personagens é outro ponto de destaque. Temos escritores alucinados que fazem experimentações de todo o tipo; atores afetados que gostam de ir a fundo em todas as suas representações; atrizes dispostas a tudo para conseguir um papel; roqueiros drogados; diretores infantilizados. atores infatuados com o sucesso e completamente psicóticos. Isso é interessante, até certo ponto. Depois vira uma espécie de “Hank Moody e seus amigos da floresta”: você fica apenas imaginando qual a nova bizarrice que surgirá e, confesso, é difícil se antecipar às bizarrices da série.

O que me prendeu ao longo da história foram os diálogos, principalmente entre Hank e Karen, seu eterno amor, e entre Hank e Becca, sua filha. À parte todo o resto, foram os melhores momentos da série. Arrisco dizer que, na última temporada, o penúltimo episódio, único em que Becca aparece na temporada inteira, surgiram os melhores diálogos da temporada inteira. Talvez os diálogos com Becca, somando os outros episódios, sejam os melhores da série como um todo.

Eu acompanhei até o fim porque não gosto de deixar nada pelo meio do caminho. Mas, se me perguntarem, eu só recomendo as três primeiras temporadas. Esqueça o resto e evite a decepção.

Nota: 3 (de 5)

Nota IMDB: 8,5 (de 10, aprox. 115 mil votos)

Das boas ideias que ficaram para trás (I).


Hoje lembrei de quatro séries com excelentes ideias, mas que infelizmente não foram à frente e foram canceladas ainda em seu início, três delas em sua primeira temporada. Duas delas são de ficção científica e as outras duas eram thrillers políticos.

***

almost human

A mais recente foi cancelada há poucos meses. Almost Human (idem, 2013), se passa no futuro não tão distante de 2048, quando robôs são desenhados para atuar como parceiros de policiais e a tecnologia já está bem mais avançada. A série tinha sua mitologia própria e as influências de filmes do gênero estão por toda a parte: robôs renegados, robôs humanizados, vírus letais avançadíssimos, ostracismo pelos limites da megalópole, estabelecidos por uma muralha que ninguém sabe o que há além, próteses biônicas, pessoas geneticamente modificadas para serem perfeitas e grupos terroristas cujo mote é destruir ou impedir os avanços tecnológicos. Tudo isso pautado por uma boa história de conspiração: a primeira cena da série mostra o momento em que o protagonista John Kennex (Karl Urban) é traído por sua parceira e perde uma perna em um atentado terrorista. Logo em seguida vemos Kennex voltando ao trabalho depois de um tempo afastado, recebendo um novo parceiro, robótico, “vivido” por Michael Ealy e chamado de Dorian.

Quando a série finalmente estava engrenando, a baixa audiência sepultou a série e quase não foram exibidos os seus últimos episódios. A série terminou com apenas 13 episódios, muitas pontas soltas e muita história pra contar. Seria ótimo se o Netflix ou outro canal comprasse a série e produzisse pelo menos umas duas temporadas de 13 episódios, apenas para amarrar as histórias. Ela tinha um potencial incrível! Na minha opinião, faltou apenas uma linha mestra conduzindo as histórias. Talvez o fato de ter o “monstro da semana” tenha sido um dos obstáculos à aceitação da série pelo público.

Nota: 4 (de 5)

Nota IMDB: 8 (de 10, aprox. 28 mil votos)

***

flash_forward_promo_poster

Outra excelente série de ficção científica, FlashForward (idem, 2009) começa quando um apagão acomete toda a humanidade ao mesmo tempo por aproximadamente dois minutos, sem que ninguém saiba o porquê. A razão, inclusive, é um dos principais motes da série e veremos mais à frente o que o causou. O mais interessante, contudo, não é isso: durante o tempo apagados, as pessoas tiveram uma visão do seu futuro, durante o exato tempo em que ficaram desmaiados, todos naquela mesma hora no futuro – alguns meses à frente -, com a consciência de algumas coisas que aconteceram até ali. Esse é um dos pontos mais interessantes: alcoólicos recuperados se veem novamente ébrios, um pai vê a filha que ele sabia estar morta, um policial descobre que vai atropelar e matar acidentalmente uma criança, além dos que nada viram – o que se descobre, mais tarde, que é porque naquele horário no qual se passam todas as visões do futuro, eles já terão morrido.

Uma parte pouco explorada, exceto pelo primeiro episódio, foi relativa às consequências do apagão. Aviões caíram, trens descarrilaram, carros colidiram e assim sucessivamente. Afinal de contas, os equipamentos continuaram funcionando e isso, logicamente, traz consequências desastrosas. Próximo ao final da sua única temporada, com 22 episódios, descobre-se que outro apagão acontecerá e “todos correm” para evitá-lo, mas se as consequências estruturais e fatais do primeiro tivessem sido mais bem explorados, certamente o drama seria maior. No entanto, a série teve excelentes momentos e poderia seguir adiante por mais uma ou duas temporadas. Depois disso, a fórmula tendia a se esgotar, mas o bom material poderia ser aproveitado em pelo menos um ou dois filmes para amarrar as pontas. Pena que isso não foi feito. Minha esperança é que, como o material original é de um livro, ele seja adaptado em breve em algum filme, recontando toda a história e trazendo uma conclusão.

Nota: (de 5)

Nota IMDB: 7,6 (de 10, aprox. 49 mil votos)

***

rubicon

Rubicon (idem, 2010) era simplesmente genial. A história gira em torno de um think tank americano, uma conspiração envolvendo grandes corporações e governos. Difícil explicar com mais detalhes do que isso sem entregar partes importantes da história, mas é uma série curta, com apenas 13 episódios, cancelada ainda em sua primeira temporada, mas que cativou bastante. Para mim, indispensável para qualquer estudante de Relações Internacionais. Aliás, o que as personagens fazem ali, é justamente análise de relações internacionais! O problema é que, ao assistir a série, eles vão querer trabalhar em um deles e eles são muito raros no Brasil…

O final da primeira temporada resolveu bem algumas questões, mas deixou tantas outras pendentes que uma ou duas temporadas a mais seriam excelentes para fechar com chave de ouro uma série tão intrigante que, apesar de não ser uma “série de espionagem”, é muito mais de espionagem do que muita série por aí que arroga este título para si… Não vou ser ganancioso: para as pontas soltas mais importantes, uma temporada apenas seria suficiente. Por favor? Alguém? Netflix?

Nota: 5 (de 5)

Nota IMDB: 7,8 (de 10, aprox. 8 mil votos)

***

SleeperCell_S1_EarlyArt

 Sleeper Cell (idem, 2005) é mais uma série indispensável para estudantes de Relações Internacionais. Teve apenas duas temporadas, a primeira com dez episódios e a segunda com apenas oito. A série trata de uma “célula dormente”, termo utilizado para as células de terroristas infiltradas entre a população, e da infiltração de um agente do FBI nesta célula. O agente Darwyn Al-Sayeed, vivido pelo excelente e já mencionado nesta postagem, Michael Ealy, é muçulmano, facilitando a sua infiltração. Alguns dos melhores diálogos da série são aqueles entre Al-Sayeed e seu comandante e entre Al-Sayeed e alguns dos terroristas, mais à frente, ao descobrirem sua real identidade. No primeiro caso, sua réplica a comentários preconceituosos contra a sua própria religião dão a tônica, enquanto no segundo a contraposição entre a visão radical e moderada do islamismo é o tema central. Fantástico.

Os roteiros são ótimos e os episódios abordam aspectos distintos da ação terrorista: motivações, vozes dissidentes, racismo, xenofobia, discriminação religiosa, obtenção de recursos, competição e desconfiança entre células terroristas, cooptação, infiltração… ali há substância para mais algumas temporadas, mas não muitas, para não se tornar repetitiva. Este é o segredo, aliás, da série: na primeira temporada acompanhamos a infiltração de Al-Sayeed em uma célula terrorista, mas a segunda trata da tentativa de “quebrar um de seus integrantes em busca de informações sobre outras células e de Al-Sayeed lidando com as consequências de uma infiltração tão profunda. Ao contrário de Homeland e 24 Horas, não temos na segunda temporada uma repetição da anterior nem reviravoltas mirabolantes para sustentar o interesse dos espectadores. Infelizmente, não sustentou mesmo o interesse deles e a série foi cancelada e muito pouco vista nos Estados Unidos. No Brasil, só a primeira temporada foi lançada em DVD e a segunda só pode ser conseguida, a muito custo, em sites de download de torrents.

A série foi concebida como uma série sazonal. A ideia era ter duas temporadas abordando o terrorismo como ele se manifesta naquele período, para dali a alguns anos os produtores retornarem à série com uma nova abordagem, refletindo as tendências contemporâneas. Quase dez anos depois da primeira temporada, não acredito que ainda retornarão a ela. Uma pena, pois gostaria muito de saber do destino de Darwyn e das demais personagens…

Nota: 5 (de 5)

Nota IMDB: 8,1 (de 10, aprox. 5 mil votos)

The Daily Post

The Art and Craft of Blogging

VOX MAGISTER: as relações internacionais pela voz dos pesquisadores.

Uma iniciativa conjunta do Centro de Estudos Internacionais (CEI/UFS) e do Núcleo de Estudos em Política Comparada e Relações Internacionais (NEPI/UFPE).

eu, conto

Impressões do mundo de um quase-escritor

Ataráxico

Porque não tem jeito mesmo.

SOCIAIS & MÉTODOS

Ciências Sociais, métodos quantitativos, técnicas de pesquisa, R...

O Istmo

Grupo de Estudos Subalternos, Periféricos e Emergentes (Gespe) | Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)

ISAPE

Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia

Brazil Portal

Brazil news aggregator, with analysis and commentary

Antônio Carlos Lessa

Professor de História das Relações Internacionais do Brasil na Universidade de Brasília

Observatório da África

Análise da África Contemporânea - Grupo de Estudos Africanos - IREL/UnB

Observatório de Impactos Ambientais

Espaço virtual de debate e pesquisa sobre Impactos Ambientais

International Connectors

Interconectando pessoas e oportunidades.

Núcleo D&R

Desenvolvimento e Região